Validade e confiabilidade do teste do degrau incremental modificado para avaliação da capacidade funcional em indivíduos com diabetes tipo 2
Abstract
Indivíduos com diabetes tipo 2 (DM2) podem apresentar redução da aptidão cardiorrespiratória devido a um conjunto de alterações nas fibras musculares periféricas, disfunção cardíaca e autonômica. O padrão ouro para esta avaliação é o teste de esforço cardiopulmonar (TECP), mas se trata de um teste oneroso e, consequentemente pouco acessível a toda a população. O teste de caminhada de seis minutos (TC6) é um teste de campo válido para avaliação da capacidade funcional no DM2, porém o espaço físico necessário para sua realização pode limitar sua ampla utilização. O teste do degrau incremental modificado (TDIM) é um teste de campo simples, de baixo custo, que necessita de espaço físico mínimo e possui boa aplicabilidade prática, mas até o momento não foi validado para avaliação da capacidade funcional em indivíduos com DM2. Portanto, o objetivo primário deste estudo foi investigar se o TDIM é válido e confiável para avaliar a capacidade funcional em indivíduos com DM2. Os objetivos secundários foram comparar as respostas cardiovasculares e a percepção subjetiva de esforço entre o TECP e os testes de campo TC6. Trata-se de um estudo metodológico e multicêntrico desenvolvido em Juiz de Fora e Belo Horizonte, envolvendo voluntários com diagnóstico autorrelatado de DM2 de ambos os sexos e com idade ≥ 18 anos. Os voluntários passaram por uma anamnese para coleta de dados sociodemográficos e clínicos, foram submetidos a um TECP (apenas no centro Belo Horizonte) e a duas repetições do TC6 e do TDIM. A validade de critério do TDIM foi avaliada a partir da análise dos coeficientes de correlação de Pearson calculados entre o número de degraus alcançados no TDIM e (1) o consumo de oxigênio (VO2) pico (L/min), medido no TECP, e (2) a distância percorrida em metros no TC6. A confiabilidade teste-reteste do TDIM foi avaliada a partir do coeficiente de correlação intraclasse (CCI) calculado entre o número total de degraus escalados no primeiro e no segundo teste. Participaram do estudo 50 voluntários, 50% mulheres, 56,9 ± 11,4 anos, com histórico de DM2 há 10,2 ± 7,6 anos. A validade de critério do TDIM foi confirmada pela identificação de correlação moderada a alta entre o número de degraus escalados no TDIM e (1) o VO2 pico (L/min) atingido no TECP (n = 18; r=0,53; p < 0,001) e (2) a distância percorrida no TC6 (metros) (n = 50; r=0,65 p < 0,001). O CCI encontrado indicou uma adequada confiabilidade teste-reteste do TDIM (CCI (IC 95%) 0,64 (0,44 – 0,78)). Em comparação ao TECP, o TDIM apresentou menores deltas de frequência cardíaca (FC) (FC-TDIM = 40,7 ± 15,6 bpm vs. FC-TECP = 70,5 ± 22,5 bpm, p<0,001), pressão arterial sistólica (PAS) (PAS-TDIM = 29,3 ± 19,4 mmHg vs. PAS-TECP = 57,0 ± 22,6mmHg, p<0,001) e diastólica (PAD) (PAD-TDIM = -1,2 ± 7,3 mmHg vs. PAD-TECP = 11,1 ± 10,5 mmHg, p<0,001) e de PSE final (PSE-TDIM = 4,3 ± 2,6 vs. PSE-TECP = 8,6 ± 1,7, p<0,001), bem como menor porcentagem da FC máxima atingida (TDIM = 40,7 ± 15,6% vs. TECP = 70,5 ± 22,5%, p<0,001). Em comparação ao TC6, o TDIM apresentou maiores deltas de FC (FC-TDIM = 41,6 ± 16,0 bpm vs. FC-TC6 = 33,2 ± 12,6 bpm, p<0,001) e de PSE final (PSE-TDIM = 4,5 ± 2,1 vs. PSE-TC6 = 3,5 ± 1,6, p<0,001), bem como maior porcentagem da FC máxima atingida (TDIM = 73,2 ± 9,9% vs. TC6 = 68,4 ± 9,9%, p<0,001). O TDIM mostrou-se um teste válido e confiável para avaliação da capacidade funcional em indivíduos com DM2. Além disso, o TDIM apresentou respostas cardiovasculares e de percepção de esforço mais intensas quando comparadas àquelas obtidas no TC6.